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Terça-feira, Novembro 29, 2005
A saudade às vezes me chega tão de repente Que não tenho nem tempo de arrumar a cama Para que ela se deite. Ela chega do nada, sem aviso prévio Já tem as chaves de casa Nem pede licença... Hoje ela chegou assim Com calma, sem fazer alarde E se deitou em meu peito Dizendo a mim que tinha saudades Do meu aconchego! Ela veio como o som da gaita de fole como o som da lágrima que timidamente rola, solitária, pela face quase impassível... Assim veio a minha saudade... Veio hoje para matar sua saudade de mim.... Patrícia Gomes Imagem: Marta Glinska :::Desabafado
às 02:16 por Anna Karenina (Paty).
Sexta-feira, Novembro 25, 2005 Rasgam-me o ventre as palavras Que viajam por todo meu corpo, E sem esforço algum saem em Desabalada disritmia... Cada palavra, como tesoura, Corta-me certeira as frases Deitando-as em panos velhos e jornais Antigos jogados a um canto qualquer. Na sílaba silente que chora, Cortando de sal a face de neve, Observo, sem esforço, a trilha cunhada De lágrimas tão doridas e imputadas. Vogal desabrigada a um canto olha Sem nenhum encanto o ventre que Dilata-se e, como sangria, deixa jorrar Os sentimentos libertos dos ferros da carne. Patrícia Gomes Imagem: Ricardo V. Ribeiro :::Desabafado
às 01:36 por Anna Karenina (Paty).
Domingo, Novembro 20, 2005
Hoje eu queria essas curvas... Que muda em cada lado: um lado escura, noutro ilumina... Sim, queria essas curvas, para derrapar-me nelas e escurecer amanhecendo. E amanhecer, quem sabe, no escuro de qualquer outro pensamento... Patrícia Gomes :::Desabafado
às 01:25 por Anna Karenina (Paty).
Sexta-feira, Novembro 18, 2005 Há em mim agora um estranho vazio que de tão cheio me deixou ôca. Me sento pesadamente numa realidade que não faz parte do que realmente sou. Há exageros demais em um corpo de menos. Sinto um peso em mim que não sou eu, que não é meu. Me deixei afundar num mar de ânsias, medos frustrações quando o que eu tinha e mais queria era justamente o contrário. Era leve, me tornei chumbo... Era alegre, passeia a ser irônica. Era segura, ensandeci na insegurança de meus pretéritos.... Me desculpe..... Patrícia Gomes Imagem: Floriana Barbu - Sunset in abandoned house :::Desabafado
às 18:06 por Anna Karenina (Paty).
Terça-feira, Novembro 15, 2005 Poeta Louco De uma Lisboa que passo a conhecer por ti... Poeta de sorriso lindo, que és palhaço divino, o único a quem não temo... Poeta de lindas palavras e que teimas em usar as alheias... Ahhh, Poeta.... Deixa a solidão pra lá.. Não envelheças tanto quanto a bela Lisboa... Sorrias, pois há mais mundo E mais jovialidade em crer que a verdade está na simplicidade de estarmos juntos... Amigos, sorridentes e insanos.... Beijos pra espantar a Solidão... Patrícia Gomes :::Desabafado
às 20:54 por Anna Karenina (Paty).
Segunda-feira, Novembro 14, 2005 Há tantas portas que receio abrir, que antevejo, com meus olhares baços o que as frestas insistem em me mostrar... Tenho medo de deixar esse mundo e encarar o que está aí fora, por ter encarado tanto por todos e nunca por mim. O que esperar de mim? Às vezes é isso que me dá medo! E eu choro, para ver se seco e rio... Será que tudo que pensei e penso, que senti e sinto pertencem realmente a mim? Será que isso tudo sempre existiu e estou apenas pegando emprestado, por tempo ilimitado? O que é, na realidade, o SER EU? Fico aqui debruçada nesse caderno em branco tentando ver além, investigando esse SER EU para ver se o encontro. No entanto só vejo a imagem de mim mesma escrevendo sobre o que sou ou o que posso ser sem ao menos saber, ao certo, se estou na trilha certa. Não quero construir um contorno exato em minhas linhas, apenas quero criar, por sobre o papel, o caminho que quero encontrar-me , num mundo onde não existam apenas as minhas linhas.... Refugio-me agora nas palavras que escrevo, para espantar a solidão que, zombeteira, me faz tremer de frio. Refugio-me aqui, conversando com minhas entrelinhas por saber que tenho muito a dizer e que há muitos a ouvir. Ela zomba de mim... Diz-me que, ainda tentando, o ato de escrever será sempre solitário. Vai ver que ela tem razão... Procuro por lembranças boas as quais posso me agarrar e usá-las como exemplo a serem seguidos. Mas onde as escondi? Qual delas seria mais adequada? Não quero mais fugas nem partidas, preciso urgentemente de encontros e reencontros... Patrícia Gomes - Do pretenso Águas Turvas.... Imagem: David Ho :::Desabafado
às 19:33 por Anna Karenina (Paty).
Sábado, Novembro 12, 2005 ![]() Noutro dia me dissestes: ¿Olha, acho que estamos na mesma avenida, sentados em calçadas opostas ,num trânsito maluco que não nos dá chance de atravessar... Ou será que temos medo de sermos atropelados... Ou melhor, será que eu tenho medo de tentar atravessar¿? Teu medo é de ser o que é... E o que você é e que tanto quer mudar, é tudo o que eu quero pra mim... Mas em liberdade... Eu tenho medo de atravessar só... Quero uma mão segurando firmemente a minha, enquanto me sorri e os carros param, porque não entendem o sorriso louco que paira dos corpos que correm em desabalada para o final do arco-íris... E mais uma vez você me rebateu: ¿Acho que na verdade nos enxergamos do outro lado da avenida, mas temos medo de nós.¿ Não sei se é medo de nós mesmos ou do modo como nos verão.. Como não nos aceitarão, nos decepcionarão, de como iremos implicar ou idealizar... Acho que são esses medos que deixamos nos paralisar. Sei que teu medo maior é voltar a ser quem era e se machucar, mas o medo de se machucar já machuca, então é trocar seis por meia dúzia... Eu me deixei mudar, tranquei muito do que era meu em um lugar que agora sofro pra achar... Tudo porque não queria mais sofrer. Mas você prefere fechar as portas, não olhar a janela, criar flores em uma estufa onde ninguém poderá vê-las... Assim, não correrá o risco de ter que mudar novamente e os outros mudarem de ti... Será a fuga uma escolha real ou uma imposição? Patrícia Gomes.... Imagem: Saturnino Espin :::Desabafado
às 20:02 por Anna Karenina (Paty).
Quarta-feira, Novembro 09, 2005 Adentro com o coração e o corpo sedentos de desejos e vontades, de violações quase incontroláveis, de sorrisos insanos em boca escancarada, em idade que vaga nos séculos, na magia disfarçada de fada, vinda de ilha sagrada... Adentro em lugares sagrados, mas meu corpo quer os mundanos, quer ser profanado por dedos humanos, beijos sedentos que em nenhum outro santuário poderiam ser dados Não quero a castidade que me é imposta... Quero a desobediência infantil, a urgência em ser mais que eu, mais que tudo... Não adentro mais em lugares que não me desejam... Vou somente onde quero, que sei que posso deter-me em olhares, corpos, palavras e que minha despudorada forma de ser, ver e viver não sejam dispostas em bandeijas, como que um corpo esquartejado, descarnado de vontades... Mas sim, adentro-me em quem me quer assim.... Despudoradamente, desobedientemente poesia... Patrícia Gomes :::Desabafado
às 22:14 por Anna Karenina (Paty).
Terça-feira, Novembro 08, 2005
Escondo-te em mim para que assim ninguém me possa tirar de mim, para que aqui tu permaneças sempre, sem querer partir. e que me faças feliz, que sejas feliz em mim, em ti, em nós... E assim nos mostrarmos ao mundo como três que somos e em todas as múltiplas faces de cada um dos três... Teu nome eu guardo, teu codinome, é só meu.. E assim... na minha espera Continuo a (a)guardar-te.... Patrícia Gomes Imagem: roubada do Louco de Lisboa :::Desabafado
às 04:36 por Anna Karenina (Paty).
Domingo, Novembro 06, 2005 ![]() Calada fico, e meus olhos vêem a escuridão e, no silêncio do vento, o som de teus beijos. É o calor de teu hálito que me seduz, teu cheiro de homem forte, frágil é o que me deixa algemada à esperança de alçar-me a ti. Meu corpo se embreaga no desejo de te possuir na liberdade de sermos três... É do contato dos nossos corpos que flui a energia harmoniosa, onde o meu desejo é o teu querer e o teu sonho é o meu desejo de realização. Nossas conquistas não são mais nossas, não nos pertencem, são deixadas pra trás como quem esquece o líquido no fundo do copo... Nossos impulsos são mesclas de desejos e de paixão, são misturas homogênias, espasmos de delírios. Quero fazer do meu ser a morada do teu desejo e, nesse sonho, minha boca sente o sopro de teus beijos e minha pele a douçura de tua língua. Você é meu céu do Norte, e toda a minha vontade, e o meu corpo, feito lar, está feliz e totalmente embebido e forte, e soluça no teu querer, que agita todo meu ser e te deleita por inteiro. Deixa-me ser sua amante, me ponho em ti com vias constantes a golpear-te com o meu prazer. Livre, sereno e calmo te deixo manso e vejo-te dormir, em seu sono, como uma menina, durmo, e em meu sorriso te solto um beijo, pois em meus desejos vejo só você. Patrícia Gomes :::Desabafado
às 17:54 por Anna Karenina (Paty).
Sexta-feira, Novembro 04, 2005 Que palavras posso dizer quando o céu chora lágrimas que não sei de quem são e que me tocam o corpo branco numa vazão torrencial que me deixa sem saber, ao certo, se me sinto mais leve ou se cheia. Não me preocupo muito com o que posso sentir depois, mas, no instante que corre, deixo vagar a mente, deixo livre os pensamentos que escorrem em mim, como a lágrima da noite que me cobre a pele quente, me fazendo tremer num frio que se torna inerente ao meu ser, que ao mesmo tempo me faz flutuar num espaço estranhamente conhecido. Vago com a água que me deixa escorrer livremente, me mostrando que há mais em mim do que simplesmente me permito ver... Que há mais em cada curva descrita pela chuva em sua queda discreta e limpa. Me sinto chuva vagando e bailando em contato com um corpo que, de tão cansado, se entrega ao descanso do manto negro e do olhar da Dalva, que a tudo vê e abençoa. Esse corpo que é meu e ao mesmo tempo é chuva, se despede do tempo em sorrisos suaves... Se avizinha o dia que pode ou não ser ensolarado, mas que independente de seu tom, já é esperado por esse corpo misto, que se recolhe em si mesmo, se despedindo de tudo o que a chuva trás, e, se recobrindo de paz, adormece um sono sem sonhos, sem pensamentos, sem futuro.... Patrícia Gomes Imagem: John Clear - Descending Angel :::Desabafado
às 20:26 por Anna Karenina (Paty).
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Coma-me, é o que me pedes. E te respondo sempre... Nu, cru, mal passado... Todo, em tresloucada antropofagia... Por inteiro, e junto a você, como-me também... Para sentir o que sentes em mim... Patrícia Gomes :::Desabafado
às 01:16 por Anna Karenina (Paty).
Quinta-feira, Novembro 03, 2005
Beijo-te em febre, em louco calor que nos cobre a pele, que nos faz delirar, que me arde a carne, que me deixa com febre, que me queima em saudade, em vontades de galopar, de sorrir em suave bobeira, de te olhar e me ver em sua retina, de sentir teu sorriso a me ninar, a fazer da menina boba a sensual mulher que se entrega sem pudores e com total malícia que só cabe dentro da paixão.... Patrícia Gomes :::Desabafado
às 01:13 por Anna Karenina (Paty).
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