|
Terça-feira, Janeiro 31, 2006
KIARA Parida prematuramente de Um corpo ressequido, Foi despojada de uma vida Que julgaram não merecia. Tida como estorvo, de tranqüilo Livramento, foi lançada a água Como fim de um tormento. Dada a luz pelas águas do rio, Num choro sentido ao longe, fora Ouvida por asas de anjos em passeio Pelos braços da lagoa foi Entregue a luz da vida... Após o choro, o silêncio Pousando nas asas dos anjos Por medo de uma repentina partida... Mas o silêncio foi de agradecimento Por estar sendo erguida diante da vida! Patrícia Gomes Imagem: Anne Geddes Homenagem à menina "Kiara", que foi resgatada viva de dentro de um saco jogado na lagoa da Pampulha em Belo Horizonte no sábado, 28/01/06. :::Desabafado
às 18:27 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Janeiro 30, 2006 Todos os Nomes de José Saramago O mais recente romance de José Saramago tem por título Todos os Nomes e desvela-se como mais um aditamento àquilo que vem na linha de Ensaio sobre a Cegueira: a reflexão sobre a precaridade da vida humana, reflexão esta protagonizada por gente vulgar, neste caso um auxiliar de escrita de uma hipotética Conservatória Geral do Registo Civil. Como no romance anterior, as personagens não têm nome próprio, sendo identificadas por uma perífrase ("a senhora do rés-do-chão", "a mãe da criança", "o marido ciumento", etc.). Exceptua-se a personagem central, o sr. José. Perpassa ao longo do romance uma paisagem de chuva e de escuridão. A Conservatória Geral do Registo Civil é pouco iluminada e a escuridão do sótão da escola assusta o auxiliar de escrita que se mune de um foco aquando do assalto à escola. A maior parte das cenas, ou sucedem de noite, ou em edifícios fechados onde escasseia a luz. Toda esta ambiência é de certo modo o retrato caricatural dos medos e preconceitos humanos. Além da escuridão, chove constantemente. Tal perturbação atmosférica vem já de outros romances. Destacamos O Ano da Morte de Ricardo Reis, que começa numa tarde chuvosa com o médico regressado do Brasil a entrar encharcado no hotel. O sr. José percorre as ruas da cidade onde chove constantemente. A atmosfera é cinzenta, soturna, húmida. Perpassa um frio espectral em todos os ambientes descritos. Em Todos os Nomes não há voos metafísicos. Tudo se desenrola cá em baixo, entre o mundo de pedra e cimento, catalogado em extensos ficheiros, criado pelo homem e que o sufoca. O próprio protagonista tem a fobia das alturas. Tudo é demasiado chão. Tanto mais que o protagonista é homem de pouca cultura, em que as suas leituras não vão além dos jornais e das revistas donde ele recorta notícias para a sua colecção de personalidades famosas. As reflexões que se elevam um pouco do solo são aquelas que o sr. José tem com o tecto da sua casa, a própria consciência. Sendo uma romance onde se problematiza o humano, Todos os Nomes não deixa de ser até certo ponto divertido, talvez o mais divertido de todos os romances que José Saramago escreveu, onde uma ironia que toca o rifão popular vai fazendo sorrir a cada passo o leitor. José Leon Machado :::Desabafado
às 12:23 por Anna Karenina (Patuska).
Quinta-feira, Janeiro 26, 2006 Em Mãos A vida é acolhida por elas, E num breve adeus se despedem No aceno breve e nem sempre Fácil de dar e colher. Desejos fazem delas o tato Certeiro, o veículo para trilhas Sinuosas e muitas vezes úmidas. Na fé se unem e em caridade Ajudam a outras menos favorecidas. Sabem ser leves e pesadas Em qualquer momento que chegue. Mãos de súplicas, orações, paixões De criança aprendendo a tatear a vida, De molecagens na fase despreocupada De tão vasta vida! Arte que escorre rendando imagens, Trançando palavras e sentimentos Em telas brancas que se agigantam em Multiplicadas cores vivas. Trabalho muitos, sem fim, uns tantos Pesados, duros, sacrificados e até Mesmo escravo, infelizmente... Mãos que dividem o pão, o árduo Trabalho, as emoções... Também causam dor, esmagam, Matam sem serem forçadas à defesa. São olhos que sentem a vida, que Trazem claridade para os que vivem Em sombras e que não se acomodam. Mãos... Tanto a dizer, por estas que não são Longas e nem calejadas, mas que trazem Nas pontas de seus pequenos dedos, a Força de viver e de nada deixar em vão... Patrícia Gomes Imagem: Jo Son :::Desabafado
às 01:26 por Anna Karenina (Patuska).
Quarta-feira, Janeiro 25, 2006 APANHAR FOME Tenho fome Daquelas que Não se sacia Em cio uivo Teu nome Diante do olho Que me acaricia Em tua pele de canela Cravo meus dentes Famintos e sugo Teu gosto Suado e quente Num sorriso Indecente Passo a língua Pelos lábios no Claro desejo De mais Em minha nuca Desnuda arde O roçar da tua Barba mal feita E tua língua Rastreia na pele O caminho do teu Desejo. Suga o leite Do meu prazer Em minhas tetas Fartas enquanto Outras partes Secretam o gozo Em puro deleite Minhas unhas Garras de águia Cravam em tua Pele e minha boca Suga-lhe a glande Empreendendo o Vôo pra saciar A fome Mas esta não se sacia E entre risos e Beijos Línguas e mãos Se digladiam Numa luta Sadia Tua boca cala Os lábios baixos E a brasa do Meu corpo Se encharca Numa quase Prece Dedos Reverenciam Meu ventre E em estocadas Ritmadas entre Leve e funda Inunda-me A gruta Mantendo Entre dentes Meus lábios Trêmulos De gemidos Lânguidos Roucos Loucos Na fome De dois Os sexos Se cobrem E juntos Jorram o Raro alimento Que por pouco Tempo há De saciar Os que Sempre têm fome... Patrícia Gomes Imagem: AnneBrigman :::Desabafado
às 00:41 por Anna Karenina (Patuska).
Terça-feira, Janeiro 24, 2006 DEBALDE Desejos Tantos São Reclames Mudos Tudo Furtivamente Em vão... Patrícia Gomes Imagem: Ewa Brzozowska :::Desabafado
às 00:32 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Janeiro 23, 2006 NOMEAÇÃO Furto na esquina Palavras que possam Beber o sentido das Lágrimas que rolam Escaldando a face. Elas rolam em grandes Goles, sulcando a pele Numa dolorosa aragem. Semeiam ventos fortes Que expulsam do corpo Todo resquício de força. Esquadrinham os sentimentos Encobertos pela razão Ou os que se aninham Nas entrelinhas da pele opaca. São lágrimas que banham, Desprendidamente, nos Lábios trêmulos a palavra que fere Sem, ao mesmo, ser pronunciada: Teu nome.... Patrícia Gomes Imagem: Ellen Schuster :::Desabafado
às 02:32 por Anna Karenina (Patuska).
Domingo, Janeiro 22, 2006
Hoje começarei deixando uma pérola maravilhosa da literatura portuguesa, que é O Livro Do Dessassosego do Fernando Pessoa. Para baixar, basta clicar aqui ou na imagem. Espero que gostem e divirtam-se... :::Desabafado
às 14:48 por Anna Karenina (Patuska).
Sábado, Janeiro 21, 2006 DESAGRADO Lavrei o negro chão da noite Em madrugas frias... No calor calcinado do Verão, que sempre chovia, Semeei um campo de estrelas De um brilho raro e Agüei com pétalas mornas De um cristalino serenar. Preparei para você, Com muito zelo, uma Perfeita lua cheia e Você, displicentemente, Não veio... Patrícia Gomes Imagem: Rob Matheson :::Desabafado
às 02:59 por Anna Karenina (Patuska).
Sexta-feira, Janeiro 20, 2006 Simplesmente chega um dia em que O chão grita para ser varrido Que as vidraças querem se banhar Sem o morno que escorrega da chuva O banheiro quer mais do que o soluço No ar com cheiro de pinho ou lavanda Os móveis pedem para respirar sem As manchas de mãos solitárias que se Agarram ao pó dos dias cinzentos Os armários não cabem mais os bailes Desajeitados de vestidos e ternos em Passos de sapatos e sandálias desalinhados No descompassado preto e branco do filme passado O presente quer o colorido da roupa que Sai da máquina limpa e com cheiro de Futuro feliz que só aguarda o amaciar Dos sorrisos limpos depois da faxina... Patrícia Gomes :::Desabafado
às 01:37 por Anna Karenina (Patuska).
Quinta-feira, Janeiro 19, 2006 Quantas palavras me surgem sem que me dê por conta disso. Nada parece passar incólume diante de tantas sombras que me rondam e que se escondem nas excessivas entrelinhas de minhas muitas frases escondidas por sob a pele que se arrepia mesmo quando venta mornamente o verão. Não consigo deixar de lançar palavras ao mundo, mesmo que não entenda bem os seus significados muitos, procuro por explicações que me levem ao entendimento de todas elas. Outras aprendi a simplesmente sentir, mas algumas outras são um tanto quanto arredias, e essas eu persigo como uma raposa faminta de alimento fresco. Há tempos que tudo se transfigura em cores pálidas que teimo em pintar em novas aquarelas. No entanto, algum todo, de alguma outra parte, rejeita as cores que meu olhar teima em fazer brilhar seja nas noites de céu alto e escuso, como na claridade harmoniosa e consoladora de uma radiante aurora. Não desisto! Apenas paro por instantes e deixo que as cores voltem a tomar seu devido lugar em seu, mais que certo, tempo e, assim, volto a colorir a minha aquarela vida com as cores que escolhi ver, mesmo divisando as muitas que transitam de um extremo ao outro teimando em brigar com meu arco-íris semi-infantil... Patrícia Gomes Imagem: Shana :::Desabafado
às 01:28 por Anna Karenina (Patuska).
Quarta-feira, Janeiro 18, 2006 CEGUEIRA Credo, cores, raças, crenças Vozes que gritam em defesa De comunitários pensamentos Ações que se unem em torno Da defesa do todo comum Mas cegos há que não percebem sua voz Frágil e degradada se impondo Ou a cegueira é imposta Como degradante cru e real Mas o que há por detrás dessa Retina que não consigo divisar Baça e nem com bons olhos? Imposta cegueira que degrada... Degradado cego que se cala... Patrícia Gomes :::Desabafado
às 01:32 por Anna Karenina (Patuska).
Terça-feira, Janeiro 17, 2006 CAMINHO DE PEDRA Não desejo saber teu nome Ou como ama ou deixa de Amar tão simplesmente Não me interessa o imediatismo Que há no humano... Tudo é vagamente demasiado Quem somos seria o passo exato Para quem quer respostas Mas não é o exato, o estático, o Movimento que baila frenético Em palavras cheias de cores e sons Quanto a lua que se posta prateada. Não quero e nem procuro a Superfície que marola com O vento crespo e morno Quero ver o coração e os olhos Da pedra que nos molda... Patrícia Gomes Imagem: Anka Gostkowska :::Desabafado
às 11:55 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Janeiro 16, 2006 TODOS OS NOMES Todos os nomes Nada me dizem... Nada me faz Aceitar a busca Do que o outro Não queira dar. Não busco nada, Aceito o que Chega por Vontade do outro. Buscar o outro... Nessa armadilha Não caio, nem quero... De infrutífero e malsucedido Já bastam os secos Amores no inverno... Patrícia Gomes Imagem: Darren :::Desabafado
às 18:45 por Anna Karenina (Patuska).
Domingo, Janeiro 15, 2006 SABORES Vida que passa ligeira, muitas Vezes rasteira e que não se furta À Lentidão que ofusca as horas Denotando sabores e dissabores... Temperos muitos podem servir Inclusive os errados quando é Preciso provar uma diferente visão. Para introspecção necessita-se do Forte cominho... Para os que precisam se olhar nos Olhos e também para os que querem Dizer sim, o doce amargo da canela... E sal, tanto para a comida quanto para a Vida se tornarem mais saborosas... Patrícia Gomes Imagem: Zefa :::Desabafado
às 03:25 por Anna Karenina (Patuska).
Sábado, Janeiro 14, 2006 MODERAÇÃO Na desinquieta paz de tua falta Amarga a imposição da ausência. Na falta do teu corpo aprendi A brincar com a paixão que arde Queimando o meu... Não sei fazer amor! Aprendi a saciar minha agonia Tocando meu corpo como teu, Extenuando-o em suores e tremores Enquanto te persigo pela vida Querendo ver-te desfigurado, humano Para que assim, quem sabe, Consiga ao menos tentar Amar-te com moderação! Patrícia Gomes Imagem: Marta Glinska :::Desabafado
às 19:27 por Anna Karenina (Patuska).
Sexta-feira, Janeiro 13, 2006 SIM... SOU SIM... Deixo de dizer o que sou Pois que já não me vê Mais como sou... Você é quem me diz que Estou diferente Mas como posso dizer Que não sou se essa medida Já me declara um novo ser?... Eu sou o que sou e Deixa estar a sua dúvida... Sou o que sou Não estou no teu nem no do outro Estou diferente do que sou E mesmo assim, estou provando Que sou o que sou E que assim vou dizendo e desmentindo... O que sou... Patrícia Gomes :::Desabafado
às 05:11 por Anna Karenina (Patuska).
Quinta-feira, Janeiro 12, 2006
SILÊNCIOS Olha-me com olhos claros Silentes Toca-me com mãos mornas Silentes Fala-me com a boca de sorrisos Silentes Manda-me embora com afagos Silentes Diz-me entre dentes que não está Silente... Enquanto o amor se esvai lenta e Silenciosamente... Patrícia Gomes Imagem: Mona Kuhn :::Desabafado
às 19:40 por Anna Karenina (Patuska).
Quarta-feira, Janeiro 11, 2006 INDIVISÍVEL Distintamente não desejo Desvincular de ti o meu prazer... Atentamente não me deixo Tentar pela divisão insana. Sabiamente vislumbro como Deslumbrada aceitação... Não... O amor não é aprendido e A imortalidade é meu horizonte Pois que amor e paixão, em minha Carne e na tua, são indivisíveis E consiste na graça divina de Brincar com o tempo! Patrícia Gomes :::Desabafado
às 23:04 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Janeiro 02, 2006 ALGO DE SONHO Na distância de espaços poucos Íamos nos aproximando... Olhares se tocavam lentamente Percorrendo a pele como a mão Que passeia pela seda [nada fria] Parado no tempo, o mesmo mestre Quedava a nos olhar [Nos] Aproximávamos com a delicadeza Da respiração suspensa e os olhares A tudo dizer. Algo de pele roçava e os aromas Um do outro a nos mergulhar, desenhando Em nossa mente um mapa para Uma eventual, futura, não querida ausência. Respirações intimamente trocadas Como a mais pura demonstração de amor... O efetivo primeiro toque nos trazendo para Mais perto, nos ensinando o verdadeiro Sentido do calor que se troca Quando se toca, de fato, a paixão. Findando o infinito encontro, bocas se Falam em línguas úmidas de desejos Muitos; sons não mais se permitem Falar e claros, calmos, se calam na Constância do abraço no Divino espaço de beijar... Patrícia Gomes Imagem: Susan Johann :::Desabafado
às 01:31 por Anna Karenina (Patuska).
|
|
Copyright
© 2002 - Proibida reprodução total ou parcial - DyNNinhA
|