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Quinta-feira, Março 30, 2006 Do Labirinto Danço perdida em vales e grutas Que não reconheço e vejo as sombras Das flores que se movem ao contrário Da dança que me deixa sem tino em rodopio. A cabeça pesa e nela há lembranças demais Que já não dançam à toa, como eu. Corro buscando a saída e me perco sempre No mesmo ponto de partida que não esqueço Entontecida, já não percorro mais os vales e nem Vejo mais as paredes encrespadas das grutas, Deito-me na grama seca e mergulho no que Que me pesa e deixo fluir os sonhos pardos Enquanto no labirinto me deixo adormecer... Patrícia Gomes Imagem: Free - Corbis :::Desabafado
às 16:56 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Março 27, 2006 Sedução ou Inconveniência?! Há alguns dias eu venho pensando em como é fina e tênue a linha que separa os homens com relação ao status de sedutor e inconveniente, conquistador e porco chauvinista! O fator motivador foi a abordagem que recebi numa das minhas raras excursões ao centro dessa roça iluminada que habito. Encaminhava-me tranquilamente para o ponto de ônibus quando um carro emparelhou ao meu lado e o seu ocupante começou a questionar para onde eu ia e me convidou a entrar no carro dizendo que me levaria ao paraíso ou onde mais eu quisesse ir! Enquanto ouvia minhas negativas e vendo a minha total falta de interesse ignorando sua investida, o mesmo não se sentia convencido de que eu realmente não estava com a menos disposição para ser assediada! Procurei ser educada a princípio, incisiva num segundo instante e como já estava ¿puta da vida¿ com a insistência chata e indiscreta, apelei e fui direta! Sempre concordei com a premissa de que todos têm o direito de se insinuar, demonstrar o interesse por algo ou alguém. Muitas vezes a abordagem é algo até mesmo esperado, tanto por homens quanto por mulheres. Uma massagem no ego de vez em quando faz um bem danado à alma e auto-estima! Mas esse mesmo direito não permite, em hipótese alguma, ultrapassar a linha da falta de respeito! A diferença entre fazer charme e rejeitar uma cantada é clara e qualquer ser humano com um pouco de bom senso que seja, pode sim, se tiver realmente interesse, perceber, em poucos segundos, depois de ter lançado o gracejo. No entanto a inconveniência não está apenas no campo direto, numa abordagem clássica frente a frente. Ela pode vir na seqüência de conversas até então amistosas, mas que têm um desenrolar muitas vezes pra lá de desastroso. A internet está recheada de tipos assim, que se insinuam e quando são repelidos pela primeira vez, vestem o disfarce de cordeiros amigos e continuam gracejando; e quando, muitas vezes, são cortados com uma rispidez inesperada, por eles, claro, partem para a defesa usando o mais machista de todos os argumentos: ¿Foi você quem provocou!¿ ou então algo do tipo: ¿Se não quer ser assediada, não faça por onde!¿. É esse tipo de argumento que me leva a pensar: Onde está o autocontrole de cada indivíduo, o livre arbítrio? Seguindo por essa linha de raciocínio, poderia dizer que toda mulher que se depara com um rapaz que lhe chame a atenção e sem pensar tasca-lhe um beijo, no susto, ou então lhe aperta a bunda, pode simplesmente dizer que a boca e a bunda do cidadão eram irresistíveis, e pelo simples fato dela ali estar ¿à disposição¿ ela fez o que fez. Ou o que é pior: um cara estupra uma menina e para se safar às penas alega que ela foi quem provocou, abusando de roupas provocativas. Isso é o cúmulo do absurdo! Não há nada mais machista, preconceituoso e cruel do que o uso desse tipo de argumento. E, infelizmente, ainda há muita gente que o dissemina. Se eu saio com meus vestidos decotados, ou com minha saia curta, eu estou pedindo para alguém me estuprar? Se um homem bonito e charmoso sai à rua sem camisa está pedindo para ser atacado? Não, esse tipo de discurso nunca deveria ser aceito em nenhum tipo de discussão, muito menos ser levado a cabo em casos penais! Mas nada me incomoda mais do que aquela cantada que vem de onde menos esperamos: das pessoas em quem depositamos toda a confiança e que chamamos de amigos. Há as pessoas que se aproveitam de momentos em que o outro está fragilizado, para atacar, como se fosse uma cobra. Abusam da confiança e dão, literalmente, o bote, visando tirarem todo o proveito em causa própria. A meu ver, algumas pessoas podem até ceder a essas investidas, mas acho que acabam se rendendo por serem ainda mais fracas que o(a) ¿oponente¿. Não imagino como poderia ser possível a manutenção de uma relação de confiança depois de uma situação como essa. Porque, se há mesmo um interesse genuíno, o outro saberá conduzir a situação para uma futura aproximação mais íntima. Quem considera e respeita não se aproveita. Com certeza há muitas pessoas que acreditam que o assédio se dá por provocação de uma parte -o que pra mim é um disparate-, mas enfim, essa é apenas a minha opinião e quem quiser contestar, fique à vontade, desde que saiba respeitá-la! Patrícia Gomes Imagem: Stanley Martucci :::Desabafado
às 20:49 por Anna Karenina (Patuska).
Domingo, Março 26, 2006 VEREDA Na incandescência do dia Sertanejo-me tal qual o Rosa dizia... Meu corpo ressequido chora Uma torrente ilusória de desilusão Mal contida no oco mandacaru. Caatingo no outono que já chega Castigando de pronto o dilatado corpo. Ardo em brasas de fogueiras Juninas que prematuramente Dançam em minha mente... No intricado desenho da pele Rachada tal qual solo árido Choro lágrimas que mapeiam A pele em braile para uma Leitura em cega seca que Umidifica a alma na dor muda Que ecoa brejeira junto ao canto Negro do assum preto que canta A brasa tarde que o cegou de dor... Patrícia Gomes Imagem: Paulo Moura :::Desabafado
às 23:46 por Anna Karenina (Patuska).
Sexta-feira, Março 24, 2006 DESAIROSA LEVEZA Levemente você chegou E invadiu minha mente Deixando-a leve... Sem pressa suas notas Fizeram do meu corpo Nova partitura aberta... Levemente bailei sem Sapatilhas de bailarina Pluma leve soprada Pelo vento morno Do seu respirar... Levemente me deixei Embaraçar nas tranças De sonhos leves e cálidos Mergulhei em ondas vivas De desejos urgentes... Levemente te senti arredar De meus leves sonhos Mente vazia ficou e o Coração aos cacos pulsando Desajeitado, manso quase Sem mais respirar... Levemente teu corpo Apartou-se do meu Os risos roucos emudeceram E os ouvidos, já moucos, Não sentem mais os ruídos Do dia, tarde ou noite... Leve... Corpo, mente... No pesado vazio do nada... Porque tudo levou e só deixou De leve a mim... Leve agora o teu cheiro que ficou O gosto da tua boca O calor do teu corpo colado ao meu... Leve... Já não há mais asas que me levem Nem passos que minhas pernas Possam levemente dar... Levemente ainda te peço: Leve-me... Patrícia Gomes Imagem: Catarina Cruz :::Desabafado
às 16:14 por Anna Karenina (Patuska).
Quarta-feira, Março 22, 2006 MORNA ALUCINAÇÃO Viajas em meu corpo Percorrendo-o da nuca aos pés Faz-se pequeno para tão longo Percurso e de pronto descansas Ao meio do caminho... Repousas delicadamente Perto da úmida gruta e com O aroma que lhe assoma Sonha com deleites infinitos Tuas mãos correm languidamente Pela vegetação exposta em Tão certo ventre meu E beijos são depostos no Pico róseo de minhas colinas... Cada centímetro é visitado com O langor de uma serpente Fazendo sua espiral. Com a orquídea de fogo úmido Brincas delicadamente como Zangão colhendo o melhor néctar. Meus olhos, em sua mal disfarçada Caixa, alçam vôos que se perdem Em pousos em tua boca de fruta doce E em teu sabor me afogo em delírios Enquanto no continente vasto do meu corpo Arfas em gozo enquanto nossos Mares se encontram e se misturam... Patrícia Gomes Imagem: Olhares.com :::Desabafado
às 00:21 por Anna Karenina (Patuska).
Terça-feira, Março 21, 2006 MENINICE De mãos dadas com a tarde A menina deixa o tempo passar... Brinca com as borboletas que nascem E explodem em vôos que durarão pouco. Mergulha no calor que escalda a pele E sorri do verde que esmorece e murcha. Nuvens fofas e de variadas formas enchem De branco o azul e este se deixa granular Enquanto pássaros cruzam o espaço com Seu cantar variado e tão afinado... A menina se deita na grama e deixa o caramujo Passar em lento arraste, com seu visgo de rastro Purpurinando o verde carminho que pede chuva fresca. Fixa o olhar na grande concha, casa-mundo Que se arrasta junto, em costas de Atlas, sem resmungos. A menina se espanta com a graça do dia que passa, Com o azul que cede lugar ao avermelhado e esse Que se deixa transformar em negro céu na paleta Do dia que esmorece ao parir a noite escura de lua nova. A menina adormece na grama e sente o manto da noite Serenando em sua pele morna, enquanto o universo A sua volta continua desperto e o tempo passando Afinado e com seu chame de dândi descompromissado... Patrícia Gomes Imagem: Corbis :::Desabafado
às 00:33 por Anna Karenina (Patuska).
Sábado, Março 18, 2006 Temporariamente Esqueci do tempo Que passou e nem dei Por conta do tempo que chegou... Alienei-me de teus afagos E suavemente perdi a lembrança Do teu dourado olhar nos meus... Olvidei as palavras que imaginei Que dizias e das minhas nem Vi o rastro da fuga desabalada... O tempo passou, chegou e vai passando Enquanto vou ficando aqui tentando Lembrar de tudo o que preferi esquecer... Patrícia Gomes Imagem:Andrey Vahrushew :::Desabafado
às 01:15 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Março 13, 2006
Circense Tenda Ciclo Círculos Tudo parecendo Um grande Circo Malabares Pirotecnia Malabarista Desequilibrada Mágico sem Cartola Coelho que Não salta Corpo que Não se Contorce Sentimentos Contraem-se Na dança das Cordas Despenca a Bailarina Torta Não há razão Nem porta Que aponte A saída Palhaço Sem graça Sorriso nu Olhos entornando Mistérios No colorido Sorriso Fictício Brilha a lágrima Grafada na Falsa brancura Da pele Real... Patrícia Gomes Imagem: Corbis :::Desabafado
às 19:28 por Anna Karenina (Patuska).
Quinta-feira, Março 09, 2006 O dia rasteja em ondas de calor que antevejo de dentro da sala fria que me cega com o branco asséptico da cura desejada por quem ali se encontra, como eu, a marolar o dia em esperanças vadias. Um cheiro quase tão puro toma o ambiente e o torna quase inodoro e insípido. O tempo parece estancar de repente e não percebo nada mais se mover, só sinto as ondas do meu pensamento que vagueia pelo ambiente. É estranho sentir esse vago ondular e não precisar o que está pra acontecer, o que move o dia. Pensamentos nada precisos, que não ficam tempo suficiente para percebê-los na íntegra. A voz ressoa de encontro a esses pensamentos que me parecem desordenados. Uma voz que parece soar como a parecença com o dia: em câmera lenta. Sentença feita, saio para o dia, que ainda espero lento, mas que vejo passar rápido, com um calor que abrasa e queima a pele ainda fria. Há tantos odores nesse dia externo que pareço estar na Índia. Seria um bom lugar para estar agora... Tantos temperos que falam tanto da vida, tantos odores, pessoas em cores totalmente novas... Ah, as cores... Preciso ver os dias com novas, estou me cansando de dores partidas e idas em sépia! Patrícia Gomes Imagem:Ralf Niederer :::Desabafado
às 20:26 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Março 06, 2006 SENTIMENTALITARDES Sigo a tarde com meu olhar calmo, tranqüilo de um futuro incerto, mas que se banha na chuva que molha a tarde acinzentada e fria. Olho os ninhos de pardais que cantam no telhado da varanda da casa como se a chuva não impedisse seus vôos serelepes. Gorjeiam algures cantos que não saberia dizer dos motivos, no entanto, sigo-os com os olhos já que não posso acompanhá-los no canto. Não canto, mas a harmonia baila em minha mente e viajo ao som do que poderia soar se usar a voz me fosse permitido aqui. Sinto-me transportar, em vôo urgente e manso, para as espumas de uma onda que banha a praia durante a maré cheia. Nesse presente, instante que não cessa, pareço poder construir um mundo. Mas tudo parece ser às pressas, e meus olhos não se habituam a ver as faces mudarem tão depressa... Espanto-me com a falta de muitas coisas em mim e com o passar do tempo, que nunca é o mesmo, mas eu sempre descobrindo um jeito de segui-lo de uma maneira ou de outra. São tantos os caminhos percorridos que me imagino onde possa estar, mas de súbito me vejo mais aqui do que por lá, ou em qualquer outro lugar. No instante que me percebo há a doçura de toda lembrança e também toda promessa de que tudo possa ser perdoado e que a alegria possa pairar em pousos sorrisos, ainda mais que o futuro se esconde e tende ao infinito... Pensando no odor ingênuo das flores, colo meu rosto á grade que julga me afastar do dia, e, de olhos fechados, decido respirar o fim de todo estio. Patrícia Gomes Imagem: Hugo Amador :::Desabafado
às 09:47 por Anna Karenina (Patuska).
Sábado, Março 04, 2006
DEPURO-ME E tudo fica em mim Como uma metalinguagem Que se repete... Repetição íntima de Signos como meta simples Simples meta de toda viagem... Prosopopéia farta de Frases sorridentes de Metafóricas línguas... Lingüística exata de sorrisos Moços em castos olhares Que furtaram lágrimas De emoções idosas, Cansadas de impressões Psíquicas que já não Soam mais nada de signos... Ah, vinhos que não mais me Tomam em verdades ditas Nem em morais ressacas... Aglutino-me! Patrícia Gomes em parceria com Rafaella Callegari Imagem: Puzzle House - Cleópatra :::Desabafado
às 17:09 por Anna Karenina (Patuska).
Quarta-feira, Março 01, 2006 DO ESPELHO... Do adorno dourado da moldura Salta o vidro que se mostra em reflexos De formas disformes de mim... São tantas faces que se olham de Olhares formas distantes, desfocadas... Não há bem ou mal Não é bom ou ruim. As formas dançam à minha frente Em marolas trêmulas na superfície Vítrea do espelho calmo... Afasto-me lentamente e assim Percebo-me ainda mais evidente... É na distância que me permito ver, Em evidência perturbadora, que estou. Do turvo que se faz límpido vejo tão Claramente as frases ditas, os silêncios, Lágrimas, sorrisos, Desejos, raiva, Abraços, impulsos, Confissões E o tempo correndo apressado e Ao mesmo passo que me diz ir Atrasado, como se não tivesse passado. Desapontamentos não matam! O espelho dita em algazarra... Entre um silêncio e o único Irônico sorriso, digo a verdade: Rejeição mata... Desapontamento só mutila... Assim, escondo as duas faces Do espelho. Patrícia Gomes Imagem: Elizabeth Whiting :::Desabafado
às 23:41 por Anna Karenina (Patuska).
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