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Sábado, Setembro 30, 2006
ADORMECENDO ALVORADA Vejo pela fresta da janela que o dia já despontou... Escuto o despertador da minha mãe que toca sem parar, tentando despertá-la do sono profundo. O que ela sonha? O que espera de mais um dia de uma rotina que nem há previsão de ser quebrada? Acho melhor me dar um tempo também e tentar acordar nos braços de algum deus do sonho, porque acho que Morfeu deve estar muito ocupado com outras e, a essa hora, ele deve estar indo adormecer... Vestida de dia, deito-me em minha cama fria e tento fixar o pensamento na luz suave que atravessa a cortina escura... Ouço os movimentos da casa, que acorda juntamente com minha mãe. Tudo parece criar um outro universo, enquanto permaneço nessa minha concha que é o meu quarto. Nele permaneço, sendo embalada pelos sons novos, pelos cantos dos pássaros que ainda resistem em cantar á minha janela... Até mesmo uma coruja displicente se atreve a piar, me deixando com mais pensamentos bobos na mente. O que ela faz ainda parada em algum muro ou galho a essa hora da manhã? Será que espera que alguma sábia a pegue e a leve de volta ao Olimpo? Com certeza não serei eu a encaminhá-la à sua tão sonhada morada... Mal levo a mim mesma pelo caminho. Patrícia Gomes, no pretenso Águas Turvas. Imagem: Bruno Miniati :::Desabafado
às 16:54 por Anna Karenina (Patuska).
Sexta-feira, Setembro 29, 2006
TEMPO AO TEMPO Preciso de um tempo... Um segundo Dez minutos, Um dia, Cinco anos talvez? Não sei, Só sei que preciso de tempo... Para que? Ainda não consegui definir, Nem cheguei a pensar muito Vai ver que o tempo Que preciso seja pra isso.. Ou pra algo que desconheço Mas enfim... Vou me dar o tempo que preciso... Patrícia Gomes Imagem: Abelardo Morell :::Desabafado
às 10:42 por Anna Karenina (Patuska).
Quarta-feira, Setembro 27, 2006 CALA Palavras saltam de meus lábios Tão roucas quanto suadas Palavras me dizem o que quero E o que já não sei dizer Será que soube, de verdade, Dize-las em bom tom alguma vez? E se não soube, você também entendeu? Palavras me faltam nessa hora em que A falta me cala e amansa de uma Forma negra que não quero... Estrangulo palavras em minha garganta Antes mesmo que pretenda usa-las Porque não quero dizer, nunca, O adeus que mata o sorriso em minha boca Que escorre, morna e salgada em minha face E que torna dolorida a lembrança de Tantas tardes e madrugadas de cumplicidade... Cale-me agora essa idéia que machuca E grite a palavra ao longe e me traga De volta ao mágico reino de sorrisos nossos... Patrícia Gomes Imagem: Nebu :::Desabafado
às 10:12 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Setembro 25, 2006
DA SENHORA NA CALÇADA... À calçada desenrola o Novelo de linha Enquanto ¿crocheteia¿ As margens do pano Que delicadamente bordara... Suas costas continuam Voltadas para a rua E meu olhar não consegue Mergulhar no seu. Dessa vez não saio remoendo Pensamentos à cerca dela, Atravesso a rua num rompante De coragem poética e absurda E recebo um sorriso meio tímido Ao me mostrar, de pronto, o Delicado bordado que fizera. Sorrio de volta e com ele Muitas perguntas se somam em mim... A senhora tem um jeito estranho de olhar, Parece que perscruta a alma e desvenda Cada interrogação que deixo em reticências. Ela me sorri novamente e me diz que A vida não é um bordado fácil, muitas vezes Erramos os pontos e temos que desfazer, mas A marca ainda fica no tecido, então faz-se Mister o cuidado em não errar, e se o fio Se embaraçar, mais cuidado ainda para desfazer Cada um dos nós... Sorri e me despedi, vendo as linhas da minha vida Em novas cores se movendo no tecido fino e Raro que escolhi para me tecer sem fim... Patrícia Gomes Imagem: John and Lisa Merrill :::Desabafado
às 11:07 por Anna Karenina (Patuska).
Sexta-feira, Setembro 22, 2006
TRAVO De minha boca escorre o azedo Gosto de um negro estranho... Meus olhos salgam a face num Chorar úmido e quente enquanto Um frio arrepio percorre a pele. Não, não vou mais dizer o que me Cala a alma, nem tentar chorar O que pode aliviar o coração... Chega! Quieta me ponho a observar o escuro Chegar tão perto e me acarinhar, E num canto soturno a embalar a Dor e a sorrir de mim... Patrícia Gomes Imagem: One Photo :::Desabafado
às 19:08 por Anna Karenina (Patuska).
Quarta-feira, Setembro 20, 2006
NO TEU COMPASSO Em teus olhos leio O desejo que salta E arrepia minha pele Tuas mãos, ao tateá-la Eriçam ainda mais o apetite Que deixo saltar à vista De meus lábios secos... Umidifica-os com teu beijo Quente e urgente e com Teus dedos sentes em minha Carne tenra a umidade que Brota entre os lábios guardados... O teu toque me estremece as Pernas, que bambas, já não sustentam O corpo que pulsa num frenesi e busco Apoio no teu, me encaixando Em tuas curvas enquanto teu hálito Faz quente a minha nuca... Meus seios túmidos se entregam Á tua boca que os sugam com deleite Enquanto me agarro aos teus cabelos Lançando gemidos roucos pelo ar... Na pele, que morna transpira, deixas O rastro de tuas mãos libidinosas, que Fazem festa na curva de meu quadril. Procuro me encaixar ainda mais ao teu, Mas nesse balé, só obedeço... Tua vontade forte me vira e teus dentes Se cravam em minha nuca, enquanto Pulsa em minhas ancas, o teu sexo forte. Não há mais rumo agora, muito menos Norte ou qualquer direção que seja certa... Tua língua em minhas costas excita Enquanto teus dedos hábeis se misturam Aos meus humores mais quentes e descobrem O grelo intumescente que deseja mais... No arco que fazes com meu corpo, já não vejo O que advém, mas sinto a língua em recantos Que não me permitem o império do silêncio... E num gemido tímido que se atreve a fugir Deixo claro minha urgência em te sentir... Já não há rédeas para o desejo e sinto forte O pulsar de teu falo em meu sexo e num Estrondo, de gemidos loucos, faz-se gozo O balé dos corpos ardentes... Patrícia Gomes Imagem: Shift Photo :::Desabafado
às 14:04 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Setembro 18, 2006
SOLICITAÇÃO Procura-me Apareço-te Busca-me Mapeio-te Encontra-me Reconheço-te... Patrícia Gomes Imagem: Elisa Lazo de Valdez :::Desabafado
às 10:29 por Anna Karenina (Patuska).
Sexta-feira, Setembro 15, 2006
BABEL Nas palavras que digo em dias assim, sinto que deixo vazar algo que foge a compreensão, não sei dizer ao certo se digo sem compreender o efeito que podem surtir ou se elas é que não são entendidas da forma como as modelo. Tudo fica baço, e eu falando, falando e quanto mais falo mais me perco nessa Babel que não sei se sou eu mesma quem crio ou se me transportam a ela. Palavra é vida, depois de soltas não retornam ao seu local de origem... Isso é fato, mais que consumado, mais que dito popular e bíblico. Mas o que fazemos dessas nossas palavras lançadas, tantas vezes ao léu? Será que apenas brincamos de usá-las ou estamos nos deixando desavisar de seus significados, de sua força e de sua real vocação? Há muito tempo que tenho me deixado divagar sobre esse assunto. Percebendo que a cada dia palavras são usadas e trocadas sem que, quem as solte, e eu não fujo à regra, não se apercebe do real poder que elas têm... Peço desculpas, a quem de direito, eu tenha tocado de forma errada com algumas de minhas muitas palavras e também agradeço a todos que as colhem e me retornam com as suas... E mais algumas palavras ficam por aqui, por já não saber se continuo a divagar ou se vou devagar... Patrícia Gomes Imagem: Pieter Bruegel - Torre de Babel :::Desabafado
às 10:07 por Anna Karenina (Patuska).
Quarta-feira, Setembro 13, 2006
ENCANTO Em algum canto perdida Acho-me e encanto não destaco De meu mutismo que a esmo Muda enquanto me transmuto em canto Que nem sempre se harmoniza Com a encosta que me deixo arrimar Enquanto o frio úmido me relembra Às costas que me devo encantar Já que habito multidões... As contenho em mim... Patrícia Gomes Imagem: David Ho :::Desabafado
às 11:03 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Setembro 11, 2006
DESCAMINHOS Não, já não me envergonho de ser Meiga, muito menos de não procurar No amor caminhos que ele não tem... Nesse inverno que se aproxima tímido Escorro a primavera em meus cabelos e Banho de flores meu corpo que faço trilha de Desejos vivos e ricos em humores que brotam Da terra viva que cultivo em mim, que cede À desordem do meu espírito que se rende a Sacralidade deliciosa do caos que é amar... Não me interessam, e acho que a mais ninguém, Sentimentos explicados e decifrados em Códigos simploriamente óbvios, enquanto Tudo o que há para se conhecer do amor É a fascinante aceitação de que ele é a Divina graça de estancar o que aprendemos E demos o nome de tempo... Já não tenho vergonha de ser meiga, doce Pois em fome voraz amo e me entrego... Patrícia Gomes Imagem: Olhares.com :::Desabafado
às 11:28 por Anna Karenina (Patuska).
Sábado, Setembro 09, 2006
ASAS... Nas máscaras que retemos criamos asas soltas... Nas asas que crescem, deixamos soltas nossas faces nem sempre tão secretas, nem sempre despertas. Muitas asas se perdem no esquecimento de nós mesmos, mas quando a maioria se liberta podemos sentir que nos tornamos inteiros... Com só um par de asas abertas... Patrícia Gomes Imagem: Axentric :::Desabafado
às 12:15 por Anna Karenina (Patuska).
Quarta-feira, Setembro 06, 2006 Bateu de repente uma saudade... Algo assim, meio triste, meio salgado e úmido... Algo que não arde, mas deixa um rastro de fogo na pele e parece não haver nada que sane, nada que cure. De repente bateu o bumbo sem nexo da vontade de deixar aqui, pra você, algo que lhe mostrasse o frio que deixou ao partir. O que era primavera tão cedo invernou e nem a chuva chegou, para umidificar esse corpo que chora desertos... Mas é assim, o bumbo toca, a saudade aperta, mas de repente uma réstia de sol descobre uma fresta na janela e devagar vai inundando de luz o que era cinza e de manso sorrisos brotam com o prenúncio de um verão um tanto quanto mais úmido e fértil... Patrícia Gomes Imagem: Decrepitude :::Desabafado
às 12:25 por Anna Karenina (Patuska).
Segunda-feira, Setembro 04, 2006
RUMO À BARBACENA Tum tum Tan tan Corre, lá vem o trem Vem chegando e já Vai partindo também Vem de Barbacena e Em cena sem barba ele Retorna com mais de cem. Janela tem grade que Quadricula o sol, parece Coisa de doido ver sol Assim, quadrado, quando Quase todo mundo diz que O tal rei é dourado e redondo. Sem a máscara que ficou perdida Num canto embaixo da cristaleira [Porque eles insistem em chegar Amarrando e dando espetada ] Arde a outra que se mostra Verdadeira, insana, vai saber! No trem pra Barbacena já Não se pergunta mais nem o porquê. Tum tum Tan tan Vai chegando o trem Em recepção, rosas exalando Um perfume estranho: mofo Espinho que fere e sangra. Mas nem tudo é estranho, Há banhos de sol em dias frios Todo mundo amigo, se tocando Ao natural, comparando ¿biláus¿ E ¿xanas¿ expostas, mas o que é Isso tudo afinal? Um cerimonial que nem mesmo Erasmo escreveria em seus Elogios... Mas ficamos piores a cada dia Pois ainda pintamos e dizemos Em palavras já tão estranhas Como é mesmo que dizem? Leituras do inconsciente! Que bando de doidos esses... Mas assim fomos levando Tanta gente diferente que Pra não se sentir diferente Embarcava na mesma viagem Todos juntos, querendo ou não No trem de doido rumo a Barbacena... Patrícia Gomes Imagem: Arthur Bispo do Rosario - Planeta paraizo dos homens :::Desabafado
às 20:47 por Anna Karenina (Patuska).
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